sábado, 21 de março de 2015

FAÇA-SE A VOSSA VONTADE!



Queridos irmãos e irmãs

Estamos já muito próximos da grande semana-santa na qual revivemos com Cristo a nossa Redenção. 

Depois da ceia Jesus se dirige com seus discípulos até o horto das Oliveiras e lá, como que sofrendo tudo o que aconteceria logo depois, suou sangue e entregou sua vida nas mãos do Pai dizendo as palavras que nos ensinou a rezar: FIAT VOLUNTAS TUA. Não a minha, Senhor, não a minha mas a Vossa vontade seja feita!

Partilhamos hoje alguma coisa do capítulo 32 do Caminho da Perfeição no qual a Santa Madre Teresa de Jesus reflete justamente sobre essas palavras do Pai-Nosso:” FIAT VOLUNTAS TUA SICUT IN COELO ET IN TERRA” – Seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu. Acompanhe-me:

“Agora que o nosso bom Mestre pediu por nós e nos ensinou a pedir coisas de tanto valor, que encerram em si todas as coisas que cá na terra podemos desejar, e nos fez tão grande favor como a de nos fazer irmãos Seus, vejamos o que Ele quer que demos a Seu Pai, e o que Lhe oferece em nosso nome, e o que nos pede, pois é de razão que O sirvamos em alguma coisa por tão grandes graças. 

“Ó bom Jesus! Que dais tão pouco da nossa parte, como pedis tanto para nós?

Sim, pois isso que damos, em si é nada para tanto que se deve e para tão grande Senhor!

Mas certo é, Senhor meu, que não nos deixais sem nada, e que damos tudo quanto podemos, se o damos como dizemos.

Digo: “Seja feita a Vossa vontade; assim na terra como é feita no Céu”. Bem fizestes, nosso bom Mestre, em fazer esta última petição, para que possamos cumprir aquilo que dais em nosso nome;...fazendo o Vosso Pai aquilo que Lhe pedis: de nos dar aqui o Seu Reino, eu sei que Vos deixaremos ficar por verdadeiro em dardes o que dais por nós; porque só a terra se transformando no céu, será possível fazer-se em mim a Vossa vontade. Mas sem isto, e em terra tão ruim como a minha, e tão sem fruto, eu não sei, Senhor, como seria possível; é coisa bem grande o que ofereceis!.........................

“Vede, filhas, isto há-de-se cumprir, quer queiramos quer não, e a Sua vontade há-de-se fazer no Céu e na Terra; crede-me, pois: tomai meu parecer e fazei da necessidade virtude..

.............................”Bonito seria para mim, Senhor, se estivesse em minhas mãos o cumprir-se ou não a Vossa vontade! Dou-Vos agora a minha livremente, embora em tempo que não vai livre de interesse, porque já tenho provas e grande experiência do ganho que há em por livremente a minha vontade na Vossa. Ó amigas! Que grande lucro há nisto, ou que grande perda se não cumprirmos o que oferecemos ao Senhor, quando isto Lhe dizemos no Pai Nosso!

............................”Quero-vos, pois, dizer e recordar qual é a Sua Vontade. Não tenhais medo que seja dar-vos riquezas, nem deleites, nem honras, nem todas estas coisas de cá da terra.  Não vos quer tão pouco, e tem em muito o que lhe dais, e vo-lo quer pagar bem, pois ainda em vossa vida vos dá o Seu Reino.

 Quereis ver como Ele procede com os que Lhe dizem isto deveras? Perguntai-o a Seu glorioso Filho, que Lho disse quando da oração do Horto. Como foi dito com determinação e com toda a vontade, vede como o Pai a cumpriu bem n’Ele, no que Lhe deu de trabalhos e dores, injúrias e perseguições; enfim, até que Lhe acabou a vida, com a morte da cruz..


“Pois vedes aqui, filhas, o que deu Àquele a quem mais amava, por onde se entende qual é a Sua vontade. Assim são estes os Seus dons neste mundo. Dá conforme o amor que nos têm; aos que mais ama, dá mais destes dons; aqueles que menos ama, dá menos, e conforme ao ânimo que vê em cada um e o amor que têm a Sua majestade. A quem o amar muito verá que pode padecer muito por Ele; ao que O amar pouco, pouco poderá padecer (ou seja, os sofrimentos lhe serão um tormento). Tenho para mim que a medida de se poder levar cruz grande ou pequena, é a do amor..................Esforçai-vos a padecer o que Sua Majestade quiser.”

Uma boa semana a todos!



sábado, 14 de março de 2015

SACRIFÍCIO ESPIRITUAL

Queridos irmãos e irmãs

O Carmelo hoje está em oração. Atendendo ao apelo do Papa Francisco de oferecer 24 h para o Senhor, desde ontem iniciando com as Vésperas às 16:30, estamos em oração, duas a duas, diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo estas 24 horas para louvar, adorar, agradecer ao Senhor por tudo o que Ele nos tem dado, e também para implorar a PAZ e o AMOR que nosso mundo precisa tanto.

No próximo dia 26 o Superior da Ordem dos Carmelitas Descalços também pediu uma hora de ração pela paz. Este pedido foi também acatado pelo Santo Padre que iniciará essa hora na celebração da Santa Missa na Capela Santa Marta. Nós a faremos das 17:30 as 18:30 no Carmelo. Foi pedido que se acendesse uma vela para este momento de oração. Esta oração é o presente que os filhos de Teresa lhe oferecem pelo seu 500º aniversário de nascimento.

No dia 28 de março data do nascimento de Santa Teresa de Jesus (500 anos) também estaremos em festa, celebrando esta comemoração com a Santa Missa que será celebrada no nosso Carmelo por D. Alberto Taveira, arcebispo da Arquidiocese de Belém, às 7 horas da manhã.

Hoje partilhamos convosco a belíssima leitura do Tertuliano sobre a oração:



Segunda leitura (Do ofício de Leituras de 5ª feira da 3ª semana da Quaresma)
Do Tratado sobre a oração, de Tertuliano, presbítero
(Cap.28-29: CCL 1,273-274)             (Séc. III)

O sacrifício espiritual
A oração é o sacrifício espiritual que aboliu os antigos sacrifícios. Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? – diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros e de gordura de animais cevados; do sangue de touros, de cordeiros e de bodes, não me agrado. Quem vos pediu estas coisas? (Is 1,11).
O Evangelho nos ensina o que pede o Senhor: Está chegando a hora, diz ele,em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Deus é espírito (Jo 4,23.24), e por isso procura tais adoradores.
Nós somos verdadeiros adoradores e verdadeiros sacerdotes, quando, orando em espírito, oferecemos o sacrifício espiritual da oração, como oferenda digna e agradável a Deus, aquela que ele mesmo pediu e preparou.
Esta oferenda, apresentada de coração sincero, alimentada pela fé, preparada pela verdade, íntegra e inocente, casta e sem mancha, coroada pelo amor, é a que devemos levar ao altar de Deus, acompanhada pelo solene cortejo das boas obras, entre salmos e hinos; ela nos alcançará de Deus tudo o que pedimos.
Que poderia Deus negar à oração que procede do espírito e da verdade, se foi ele mesmo que assim exigiu? Todos nós lemos, ouvimos e acreditamos como são grandes os testemunhos da sua eficácia!
Nos tempos passados, a oração livrava do fogo, das feras e da fome; e no entanto ainda não havia recebido de Cristo toda a sua eficácia.
Quanto maior não será, portanto, a eficácia da oração cristã! Talvez não faça descer sobre as chamas o orvalho do Anjo, não feche a boca dos leões, não leve a refeição aos camponeses famintos, não impeça milagrosamente o sofrimento; mas vem em auxílio dos que suportam a dor com paciência, aumenta a graça aos que sofrem com fortaleza, para que vejam com os olhos da fé a recompensa do Senhor, reservada aos que sofrem pelo nome de Deus.
Outrora a oração fazia vir as pragas, derrotava os exércitos inimigos, impedia a chuva necessária. Agora, porém, a oração autêntica afasta a ira de Deus, vela pelo bem dos inimigos e roga pelos perseguidores. Será para admirar que faça cair do céu as águas, se conseguiu que de lá descessem as línguas de fogo? Só a oração vence a Deus. Mas Cristo não quis que ela servisse para fazer mal algum; quis antes que toda a eficácia que lhe deu fosse apenas para servir o bem.
Consequentemente, ela não tem outra finalidade senão tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão de pé.
Oram todos os anjos, ora toda criatura. Oram à sua maneira os animais domésticos e as feras, que dobramos joelhos. Saindo de seus estábulos ou de suas tocas, levantam os olhos para o céu e não abrem a boca em vão, fazendo vibrar o ar com seus gritos. Mesmo as aves quando levantam voo, elevam-se para o céu e, em lugar de mãos, estendem as asas em forma de cruz, dizendo algo semelhante a uma prece.
Que dizer ainda a respeito da oração? O próprio Senhor também orou; a ele honra e poder pelos séculos dos séculos.

Uma boa semana para todos!

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A ORAÇÃO É A LUZ DA ALMA

Queridos irmãos e irmãs

Nesta semana queremos compartilhar essa belíssima reflexão do "Pseudo-Crisóstomo" do Ofício das Leituras de 6ª feira passada.
 
"A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem inter­rupção.
Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas - como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo - é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presen­ça de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

Um bom domingo a todos!

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A ORAÇÃO DA QUIETUDE




Queridos irmãos e irmãs
Estamos para iniciar o tempo litúrgico da Quaresma. Tempo de acompanhar Jesus ao deserto e depois sofrer com Ele tudo o que Ele suportou por amor de nós. Tempo que convida à conversão. Tempo de praticar com mais empenho a Oração, o Jejum e a Esmola, para nos dispormos a uma maior união com Cristo.

Continuemos a partilha dos ensinamentos de Santa Teresa de Jesus sobre o caminho da oração. Hoje apenas um pequeno trecho do Caminho da Perfeição, capítulo 31, no qual ela continua a falar sobre a Oração da Quietude.
Esta oração lembra o Salmo 130: “Senhor, meu coração não é ambicioso, nem meus olhos altaneiros. Não ando atrás de grandezas, nem de maravilhas que me ultrapassam. Não! Eu fiz calar e repousar meus desejos como criança amamentada no colo de sua mãe...”

Para dar uma imagem do que seja a oração da quietude ela diz: “Encontrei uma comparação que me parece se enquadra muito bem no que quero explicar. Está a alma como uma criança que ainda mama, quando está aos peitos da sua mãe, e esta, sem que a criança mova os lábios, lhe deita o leite na boca para a regalar. Assim é nessa oração: sem trabalho do entendimento, está a vontade amando, e quer o Senhor que, sem o pensar, entenda que está com Ele e que só sugue o leite que Sua Majestade lhe põe na boca e goze daquela suavidade.....

 Concluamos, pois, agora: posta a alma nesta oração, já parece ter-lhe concedido o Pai Eterno a Sua petição de lhe dar aqui o Seu Reino. Oh! Ditoso pedido em que tantos bens pedimos sem mesmo o entendermos!. Ditosa maneira de pedir! Por isso quero eu, irmãs, que olhemos como rezamos esta oração do Pai Nosso e todas as outras orações vocais; porque feita por Deus esta graça, descuidar-nos-emos das coisas do mundo, pois chegando o Senhor do mundo, tudo lança fora...Procurem ir se desapegando de tudo, porque se não o fazem, não sairão do lugar........

Prestai atenção: fazeis muito mais com uma palavra do Pai Nosso, dita de quando em quando, do que com dizê-lo muitas vezes e às pressas. Aquele a quem pedis, está muito perto de vós, não deixará de vos ouvir. Crede que este é o verdadeiro louvar e santificar o Seu Nome, porque já, como de Sua casa, glorificais ao Senhor, e O louvais com mais afeto e desejo, e parece que não podeis deixar de O servir”.

UMA SANTA QUARESMA A TODOS1

sábado, 7 de fevereiro de 2015

ORAÇÃO VOCAL



Queridos irmãos e irmãs, continuemos nossa partilha sobre o tema “Oração” tirado hoje do Capítulo XXX do Caminho da Perfeição,  composto por Santa Teresa de Jesus que no próximo dia 28 de março completará 500 anos de seu nascimento (1515-2015).

Como ela imagina o CÉU: “Ora, pois, o grande bem que me parece a mim que há no Reino do Céu – com muitos outros – é o de já não ter cuidado com coisa alguma da terra, mas um sossego e glória em si mesmos, um alegrar-se que se alegrem todos, uma paz perpétua, uma grande satisfação no íntimo de si mesmos, que lhes vem de ver que todos santificam e louvam ao Senhor, e bendizem o Seu nome e que ninguém lá O ofende. Todos O amam e a mesma alma não faz outra coisa senão Amá-Lo, nem pode deixar de O amar, porque O conhece. E assim O amaríamos aqui, ainda que sem ser com esta perfeição, nem com tal plenitude; mas se O conhecêssemos, amá-Lo-íamos muito por outro modo de que O amamos.

Em poucas palavras Santa Teresa descreve o que ela imagina que será o Céu, e como podemos já começar nosso céu aqui na terra, procurando conhecer mais a Deus e nos dedicarmos mais às coisas de Deus.

Ela continua: “Parece que vou dizer que devemos ser anjos para Lhe fazer esta petição (venha a nós o vosso reino) e rezar bem vocalmente.  Bem o quisera o nosso divino Mestre, pois tão alta petição nos manda pedir; e é bem certo que não nos disse para pedir coisas impossíveis, que possível seria – com a ajuda de Deus – chegar a isto uma alma ainda nesta terra(embora não com a mesma perfeição em que estão as que já deixaram esta existência...)....... Aos que ainda estão aqui Ele dá graças para que tenham grande esperança de ir gozar perpetuamente do que aqui lhe dá aos bocadinhos.

“Parece que oração da quietude e oração vocal nada tem a ver uma com a outra, mas eu sei que tem.....”Se Deus o quiser Ele pode elevar uma pessoa que reza apenas vocalmente a uma alta contemplação. “Conheço uma pessoa que nunca pode ter senão oração vocal e junto com esta tinha tudo; e, se assim não rezava, ficava o entendimento tão perdido que não o podia sofrer.....Em certos “Pai-Nossos” que ela rezava em honra das vezes nas quais o Senhor derramou sangue...ficava algumas horas. Veio uma vez ter comigo muito contristada, que não sabia ter oração mental, nem podia contemplar, mas só rezava vocalmente. 

Perguntei-lhe o que rezava e vi que, junto com o “Pai-Nosso” tinha pura contemplação, e o Senhor a levantava até juntá-la consigo em união; e bem se percebia em suas obras receber tão grandes graças, porque preenchia muito bem a vida. Assim, louvei ao Senhor e tive inveja da sua oração. Se isso é verdade, como é, não penseis, os que sois inimigos de contemplativos, que estais livres de o ser, se rezais as orações vocais como se devem rezar, tendo a consciência limpa."

Agora que já aprendemos que mesmo rezando uma simples Ave-Maria ou um Pai-Nosso, se pusermos nessa oração todo nosso coração e a mente, e se tivermos uma consciência limpa, poderá nos daro Senhor o dom da oração contemplativa (profunda união com Deus). Vamos tentar?

Uma boa semana a todos.